Em 1º de maio de 2026, o Acordo Interino de Comércio entre Mercosul e União Europeia entra em aplicação provisória. Para quem movimenta carga no Mercosul, isso não é notícia de jornal. É uma mudança operacional concreta que vai afetar volume de carga, exigências de conformidade e dinâmica de custos nos próximos meses.
O acordo foi assinado em 17 de janeiro de 2026 e aprovado pelo Conselho da UE com 21 votos a favor e 5 contra (França, Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia). Todos os quatro países do Mercosul já ratificaram. O Brasil promulgou em 17 de março. O Parlamento Europeu encaminhou o acordo ao Tribunal de Justiça da UE para parecer sobre compatibilidade legal, mas a aplicação provisória do capítulo comercial segue independentemente.
Este artigo traduz o que esse acordo significa na prática para a operação logística de quem exporta, importa ou transporta carga no Mercosul.
O que o acordo muda em números
Redução tarifária: mais carga circulando
O acordo prevê eliminação de 93% das tarifas sobre exportações do Mercosul para a UE e 92% sobre importações da UE pelo Mercosul. No campo agrícola, motor da logística rodoviária brasileira, 77% das tarifas agrícolas europeias serão eliminadas. Produtos como suco de laranja, café solúvel e frutas terão tarifa zero. Carne bovina ganha cota de 99 mil toneladas/ano com tarifa reduzida a 7,5%.
O Brasil responde por 89,5% do comércio entre Mercosul e UE. Em 2025, as exportações brasileiras para a UE atingiram US$ 49,8 bilhões, crescimento de 3,2% sobre 2024. A UE é o segundo maior parceiro comercial do Brasil, representando 14,3% das exportações e 17,9% das importações.
Projeções do IPEA estimam impacto de +0,46% no PIB brasileiro até 2040. No curto prazo, o governo projeta crescimento de US$ 7 bilhões em exportações. São números que se traduzem em volume real de carga adicional circulando por rodovias, portos secos e terminais aduaneiros.
Onde a operação logística sente o impacto
Pressão sobre corredores rodoviários e portos
Mais de 90% das exportações brasileiras para a UE utilizam modal marítimo. Mas a carga chega aos portos por rodovia, e o modal rodoviário já responde por 62% da matriz de transporte do país. O acordo amplifica um fluxo que já pressiona a infraestrutura existente.
Os portos mais impactados são Santos (SP), Rio Grande (RS), Itapoá (SC) e Suape (PE). Para quem opera no corredor Sul, via Uruguaiana, conectando Brasil, Argentina e Chile, o efeito é duplo: aumento do fluxo exportador para portos e aumento do fluxo importador de produtos europeus entrando no Mercosul.
Dados da CNI mostram que 58% dos exportadores apontam o custo de transporte internacional como maior entrave, e 48,5% citam ineficiência portuária. Com volume adicional, esses gargalos se intensificam. A análise que publicamos sobre os desafios nas áreas de fronteira detalha como filas e retenções já comprometem operações não estruturadas.
Novas exigências de conformidade
O acordo não é só redução de tarifa. O capítulo de Facilitação de Comércio estabelece compromissos com procedimentos aduaneiros simplificados, sistemas eletrônicos integrados, documentos digitais com assinatura eletrônica e tratamento preferencial para bens perecíveis.
Na prática, isso eleva o patamar de exigência para toda a cadeia. Exportadores que atendem o mercado europeu precisarão demonstrar rastreabilidade completa, conformidade sanitária e ambiental, e consistência documental em padrões que a UE já aplica internamente. Para transportadoras, a tolerância a inconsistências documentais na fronteira diminui, mesmo com a facilitação prevista no acordo.
A Portaria RFB nº 583/2025 já intensificou a fiscalização de fraudes em importação. O acordo Mercosul-UE reforça essa tendência: mais comércio com mais controle, não menos.
A vantagem OEA no novo cenário
Reconhecimento mútuo entre blocos
O acordo inclui disposições específicas para reconhecimento mútuo de Operadores Econômicos Autorizados (OEA/AEO) entre Mercosul e União Europeia, além de um Comitê de acompanhamento para garantir a implementação dessas disposições.
Isso se soma aos ARMs já vigentes: Mercosul e Aliança do Pacífico (assinado em maio de 2025), Brasil e Estados Unidos (2022), Brasil e Colômbia (2020). Uma transportadora certificada OEA-S no Brasil passa a ter reconhecimento aduaneiro em um arco que vai dos Estados Unidos à Europa, passando por todo o continente americano.
Os números reforçam o diferencial: operadores OEA-C obtêm canal verde em 99,68% das operações, com taxa de seleção de apenas 0,32%, contra 2,93% para não certificados. Em junho de 2025, o programa contava com 875 funções certificadas e operadores OEA respondiam por 26,78% de todas as declarações de importação e exportação. A análise detalhada sobre o papel da certificação OEA está disponível no nosso blog.
Com o acordo Mercosul-UE, a certificação OEA deixa de ser diferencial competitivo e se torna pré-requisito operacional para quem quer capturar o aumento de volume com eficiência.
O que avaliar na sua operação agora
O acordo entra em vigor provisório em maio. Os efeitos sobre volume e compliance são graduais, mas as empresas que se preparam antes da curva capturam a vantagem. Três perguntas para avaliar a exposição da sua operação:
Sua documentação está integrada digitalmente? O acordo empurra toda a cadeia para sistemas eletrônicos. ERPs não integrados ao Siscomex e processos manuais de documentação aduaneira se tornam gargalo operacional.
Seu parceiro logístico é certificado OEA? Com reconhecimento mútuo entre Mercosul e UE, a certificação passa a impactar diretamente o tempo de liberação e o custo de cada operação. A diferença entre 0,32% e 2,93% de seleção para canal de conferência é a diferença entre previsibilidade e incerteza.
Sua operação está preparada para aumento de volume? Mais carga significa mais pressão sobre prazos, frota e capacidade operacional. Transportadoras que operam no limite da capacidade hoje vão enfrentar compressão de margem com volume adicional, a menos que invistam em eficiência antes.
O cenário regulatório brasileiro em 2026, com DUIMP obrigatória e Sistema VAI em Uruguaiana, Portaria 583/2025 e agora o acordo Mercosul-UE, aponta em uma direção única: mais comércio, mais controle, mais exigência.
Perguntas frequentes sobre o acordo Mercosul-UE e logística
O que é o acordo Mercosul-UE e quando entra em vigor?
O acordo Mercosul-União Europeia é um tratado comercial entre os países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e os 27 países da União Europeia. Foi assinado em 17 de janeiro de 2026. O Acordo Interino de Comércio (iTA) entra em aplicação provisória em 1º de maio de 2026. Todos os países do Mercosul já ratificaram. O acordo prevê eliminação de 93% das tarifas sobre exportações do Mercosul para a UE e 92% sobre importações da UE pelo Mercosul.
Como o acordo Mercosul-UE afeta o transporte rodoviário no Brasil?
O acordo amplifica o volume de carga que circula por rodovias brasileiras em direção aos portos de exportação e a partir dos pontos de importação. O Brasil responde por 89,5% do comércio entre Mercosul e UE, e mais de 90% das exportações brasileiras para a Europa seguem por modal marítimo, com a carga chegando aos portos por rodovia. Projeções do IPEA indicam crescimento de US$ 7 bilhões em exportações no curto prazo e impacto de +0,46% no PIB até 2040. Os portos de Santos (SP), Rio Grande (RS), Itapoá (SC) e Suape (PE) são os mais impactados. Para transportadoras rodoviárias internacionais no Mercosul, o efeito é duplo: aumento do fluxo exportador para portos e aumento do fluxo importador de produtos europeus entrando no bloco.
O acordo Mercosul-UE inclui reconhecimento mútuo do programa OEA?
Sim. O capítulo de Facilitação de Comércio do acordo inclui disposições específicas para reconhecimento mútuo de Operadores Econômicos Autorizados (OEA/AEO) entre Mercosul e União Europeia. Isso se soma aos ARMs já vigentes: Mercosul e Aliança do Pacífico (maio 2025), Brasil e Estados Unidos (2022), Brasil e Colômbia (2020). Operadores OEA-C obtêm canal verde em 99,68% das operações (taxa de seleção de 0,32%), contra 2,93% para não certificados, uma diferença que se traduz em horas de espera e custo operacional a cada travessia.
Quais setores brasileiros mais se beneficiam com o acordo?
Os setores com maior impacto positivo são agronegócio (77% das tarifas agrícolas da UE eliminadas, cota de 99 mil toneladas/ano de carne bovina com tarifa de 7,5%, tarifa zero para suco de laranja, café solúvel e frutas), produtos industriais de maior valor agregado e serviços, incluindo transporte, telecomunicações e finanças. Para a logística rodoviária, o aumento da demanda por escoamento de produtos agrícolas e industriais se traduz diretamente em mais carga nos corredores rodoviários, especialmente nas rotas Centro-Oeste e Sul em direção aos portos do Sudeste e Sul.
O que muda nas exigências de conformidade para exportar à UE?
O acordo eleva o patamar de exigência para toda a cadeia logística. Exportadores precisarão demonstrar rastreabilidade completa, conformidade sanitária e ambiental, e consistência documental em padrões europeus. O capítulo de Facilitação de Comércio estabelece compromissos com procedimentos aduaneiros simplificados, sistemas eletrônicos integrados e documentos digitais com assinatura eletrônica. Paralelamente, a Portaria RFB nº 583/2025 já intensificou a fiscalização de fraudes em importação no Brasil. O cenário é de mais comércio com mais controle.
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A Transmaas opera nos corredores Brasil-Argentina e Brasil-Chile desde 2003, com certificação OEA desde outubro de 2025 e integração ao Sistema VAI em Uruguaiana.
Se sua empresa precisa de orientação sobre como o acordo Mercosul-UE impacta sua operação específica ou quer avaliar o nível de conformidade da sua cadeia logística, nossa equipe está disponível.
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